

UMA CHAMA BRUXOLEANTE
Fazer férias é sempre renovador, não tanto pelo descanso
físico – pois costumam levar ao contrário – mas
pela mudança de ambiente. Também pela vivência de experiências
novas, e o abandono momentâneo do nosso mundo rotineiro, tantas vezes
sem opções de paisagem. Rodar por esse imenso país,
dormir mal várias noites, perder-se nas cidades de médio porte
(que conhecíamos tão bem), nos leva a novos parâmetros,
e nos coloca diante de novas realidades do mundo no qual vivemos. Tive ocasião
de exercer a “pastoral da roda”, e rever velhos ambientes, hoje
bastante modificados. Voltei, em várias ocasiões, minhas atenções
para essas nobres filhas da Igreja, que são as Religiosas. Tive ocasião
de retornar a uma cidade, onde há 40 anos pude fazer um retiro de
espiritualidade. Trata-se de um Colégio de Irmãs que, na ocasião,
abrigou mais de 300 pessoas. Tenho saudades daquela grande experiência
de encontro com Deus. Ao visitar o local, vi que o enorme colégio
fora transformado em hotel. Fecharam, por falta de novas vocações.
Aliás, num Estado da federação, houve anos em que nenhuma
Congregação tinha qualquer noviça. Abandonaram a sentença
do Senhor: “Maria escolheu a melhor parte” ( Lc 10,42).
De onde pode provir tamanha
mudança de pensamento? Acho que um dos motivos reside no fato de as
famílias se terem reduzido a três ou quatro membros. Nenhum casal
que tenha só uma filha, admite entregá-la à vida religiosa.
Outro fator muito forte é a campanha maciça que enfatiza a beleza
das moças com produtos cosméticos, mostrando o encantamento
da beleza feminina. Fala-se em desfiles, nas modas sedutoras, na beleza do
corpo feminino. Não há espaço para a exaltação
da beleza moral, para a doação em benefício do semelhante,
para a solidez da vida espiritual. Sobretudo, as nossas Comunidades não
conseguem focalizar a beleza do encontro com Cristo, a sublimidade da oração,
a entrega da vida em favor dos necessitados. Temos no Brasil muitas Santas
Mulheres, exemplos perfeitos de amor a Deus e ao próximo. Podemos ter
certeza de que as mulheres que amam a Cristo, e se dedicam ao próximo,
preenchem uma necessidade da Igreja. Esse amor as leva a se sentirem sumamente
felizes.
Dom Aloísio
Roque Oppermann scj – Arcebispo de Uberaba, MG
Endereço eletrônico: domroqueopp@terra.com.br
Todos nós gostaríamos de exclamar:
“não tenho inimigos! Dou-me muito bem com todos”! A realidade
nos mostra que, via de regra, todos temos uma pedra no sapato. Há sempre
alguém que nos espicaça e nos tira o bom humor. Na maior parte
das vezes é por motivos fúteis. Alguém é frontalmente
contra nós por causa do nosso jeito; porque a nossa fisionomia lembra
a de um conhecido adversário; porque deixamos de atender um pedido
que envolvia corrupção; porque não somos do partido tal...Posso
dizer, pessoalmente, que despertei vários inimigos irreconciliáveis,
por ter tomado posição em favor daquilo que é ensinamento
de Cristo. Outras vezes não foi possível atender uma solicitação,
inteiramente de interesse pessoal, por contrariar o bem comum.
Eu tenho muitíssimos amigos. Sinto uma onda de simpatia pela minha
pessoa. Mas não posso dizer que não tenho inimigos. Existem
alguns poucos que me odeiam. Às vezes nem eles sabem direito porquê.
Chego a gemer na dor: “Salva-me, Senhor, dos meus inimigos” (Sl
143, 9).
Fico conjeturando: “por que passamos por essa provação de encontrar alguém que nos detesta?” O primeiro motivo podemos ser nós mesmos, quando prejudicamos alguém irremediavelmente. Neste caso estejamos abertos para um reatamento da amizade. Todos temos um dia em que cometemos algum erro. Entre os que tomam a iniciativa de nos odiar (sim, isso existe ) quem são os nossos inimigos? Não são diretamente os ateus, os espíritas, os evangélicos. São aqueles que deveriam ter um vínculo conosco. “Os inimigos do homem são os da sua casa” (Mt 10, 36). A definição das nossas ideologias costuma ser outro fator de desunião. Os amigos vão até ficar estupefatos com minha afirmação. Mas um divisor de águas é uma velha ideologia do século XIX. Trata-se do socialismo. A partir dele o homem de Igreja é classificado de “avançado”, “libertador”, retrógrado”, “tridentino”, “moderno”, “atualizado”, “amante dos ricos”, ou “inteligente”. O critério não é o evangelho. Em muitos casos somos obrigados a conviver com tais pessoas, sem esperança de reconciliação, e rezar por elas. Mas a pergunta, diante de muitos casos inexplicáveis, sempre permanece: “Saulo, Saulo, por que me persegues” (At 22, 7).
Dom Aloísio Roque Oppermann
scj – Arcebispo de Uberaba, MG.
Endereço eletrônico: domroqueopp@terra.com.br